Estaria tudo muito bem nesse modelo, se nos serviços produtivos se incluíssem aqueles prestados pelo ecossistema, tais como fornecimento de minérios e solo fértil, purificação das águas, da atmosfera e dos solos, regulação climática, polinização de culturas agrícolas e tantos outros. O problema todo é que os economistas passaram a definir capital apenas como sendo capital financeiro (dinheiro e crédito) e manufaturado (maquinário e congêneres).
Com isso, branquinho sai por aí dizendo que os capitais manufaturado/financeiro (dinheiro, maquinário, etc.) e natural (recursos naturais em geral) são perfeitamente intercambiáveis/substituíveis, ou seja, se faltar recurso natural, basta enfiar mais máquinas e dinheiro na conta que eles acreditam que dá tudo certo. É sério, se você perguntar para um economista clássico se existe o problema da escassez de recursos naturais, ou ele ri na tua cara (sendo que ele é quem é demente, por rir) ou ele te dá uma preleção fantastólica dizendo que na falta de um recurso natural a inventividade humana dá conta de criar uma nova máquina, processo produtivo ou outra mumunha qualquer que resolve o “seu suposto problema de escassez de recurso natural”. Por que, para ele, o ecossistema é apenas mais uma parte da economia, de onde você pode retirar recursos e onde você pode descartar seus rejeitos, enquanto que a "economia" cresce em volta e fora dele tanto quanto você quiser, conforme o diagrama abaixo:


Com tudo isso, é até razoável que algum leitor menos afeito a essas questões venha a perguntar: “Oras, mas o mundo não estava ‘vazio’? Qual o problema?”
O problema é justamente que o mundo ESTAVA vazio, do verbo JÁ NÃO ESTÁ MAIS. Com a aceleração continuada da economia global, que consome quantidades cada vez maiores de recursos materiais, insumos energéticos e serviços naturais (de absorção e reciclagem de resíduos inclusive), chegamos ao que nós oikonomistas denominamos mundo cheio.

A economia mundial simplesmente está “batendo na tampa” do ecossistema global finito. Não há minério, solo fértil, água potável e etc. e tal para todo mundo, e os economistas de plantão ainda querem que a economia mundial continue a crescer indefinidamente. Perceberam o desastre? A conta não fecha, mas como eles esqueceram uma parcela dos números, não enxergam mais esse não fechamento.
Antes que alguém venha me chamar de vermelhinho ou coisa que o valha, um esclarecimento adicional: o capitalismo propriamente dito não é intrinsecamente incompatível com a economia ecológica (oikonomia). A incompatibilidade vem da contabilidade incompleta praticada em sua versão atual. Hoje, contabilizam-se apenas e tão somente os capitais financeiro e manufaturado, de onde vem que a conta não está fechando. Pois basta reinserir nesse “livro-caixa” os lançamentos correspondentes aos capitais humano, social e natural/físico (recomendo a leitura de “Capitalism as if the world matters”, de Jonathon Porritt).
Capital humano é tudo o que podemos, como pessoa, aportar a um processo produtivo, incluindo força física, inteligência lógico-matemática, todos os demais tipos de inteligência (intrapessoal, interpessoal, espacial-motora, musical, etc.) e nosso capital intelectual (conhecimentos, habilidades e competências).
Capital social é todo o conjunto de regras e interações sociais que nos permitem produzir e conviver em harmonia: instituições, leis, regras, cultura, etiqueta, etc.
Capital natural ou capital físico é a soma de todos os serviços e produtos fornecidos pelo ecossistema: purificação atmosférica, ciclo da água (incluindo regularidade de regimes de chuvas), fornecimento e renovação de solos férteis, fertilização de culturas agrícolas, fornecimento de matérias primas diversas, fornecimento de oxigênio atmosférico pelo fitoplâncton oceânico, reciclagem de rejeitos sólidos pelo solo e respectiva microfauna bacteriana, etc., etc., etc.
Uma vez que você devolve os “números” correspondentes a essas informações ao seu “sistema de equações”, a conta volta a fechar. Afinal de contas, capital é todo e qualquer estoque a partir de cujo fluxo podemos auferir bens e serviços. E o bom e velho capitalismo é o sistema de mercado em que a oferta e a procura dos bens e serviços regem sozinhos os fluxos dos diversos tipos de capital (a boa e velha "mão invisível" de Adam Smith). Desde que você se lembre de incluir em seu modelo todos os capitais envolvidos em seu processo econômico, o modelo funciona.
Hoje eu já deixei com vocês os conceitos de Oikonomia X Crematística, mundo vazio, mundo cheio e Teoria dos Cinco Capitais (natural/físico, humano, social, manufaturado e financeiro).
Antes de encerrar, convido-os a fazer uma pequena "lição de casa": recordem termodinâmica básica (1ª e 2ª leis) e fucem no Google atrás das palavras ENTROPIA e EXERGIA. Isso será útil para o melhor aproveitamento do próximo post desta série.
Por enquanto já está de bom tamanho para uma introdução, então à guisa de fechamento vou apenas deixar alguns autores obrigatórios:
- Nicholas Georgescu-Roegen: pai da matéria, com seu The Entropy Law and the Economic Process;
- Robert Costanza: membro fundador da International Society of Ecological Economics; e
- Herman Daly: meu autor favorito, extremamente prolífico. Para os iniciantes, recomendo seu altamente didático “Ecological Economics: Principles and Applications”, em co-autoria com Joshua Farley.
Agradecimentos: As ilustrações "sem créditos" pertencem originalmente às transparências de aula da disciplina PEA-2200: Energia, Meio Ambiente e Sustentabilidade, para a qual presto serviços como aluno-monitor na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Daqui duas semanas, retomarei alguns dos conceitos básicos e construirei para vocês um pequeno “teorema de impossibilidade”, uma ferramenta básica de suma importância para o remodelamento da teoria econômica visando a obtenção de uma economia ESTÁVEL e, portanto, SUSTENTÁVEL, e para a compreensão de por quê isso é absoluta e inequivocamente necessário.
Até lá, pessoal!
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