2 de março de 2012
Quaresma, tempo de conversão.
Antes de mais nada, minhas desculpas pela inatividade. 6 meses sem escrever são mesmo um excesso, até mesmo para os meus padrões de desleixo blogístico.
Isso posto, vamos ao assunto do post de hoje. A Quaresma.
A Quaresma é o período de 40 dias que vai da Quarta Feira de Cinzas à Quinta Feira Santa - a quinta da Semana Santa, em que celebramos a instituição da Eucaristia (Comunhão) por Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse período é um tempo de Conversão, Arrependimento e Penitência, em que devemos meditar e praticar atos sacrificiais: preces, jejum/abstinência e esmolas.
A fundamentação teórica é extensa, para quem quiser estudar a respeito, mas o principal está nos parágrafos 540, 1095 e 1438 do Catecismo da Igreja Católica: http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/p/r.html#QUARESMA
Resumindo, recordamos os 40 dias e 40 noites em que Jesus jejuou no deserto, antes de ser tentado por Satanás com os pecados da vaidade, do orgulho e da cobiça e resistir de forma perfeita e inigualável, ganhando para nós a graça de sermos capazes nós também de resistir às tentações do inimigo.
A obrigação mínima de quem deseja ao menos tentar ser um bom católico, nesse período, em adição à Missa dominical, é fazer jejum (hoje denominado abstinência, mas isso é um assunto que precisaria de outra postagem para ser tratado em profundidade) de carne vermelha (gado: bovino, ovino, caprino, suíno, eqüino, etc.) e de álcool. E isso em adição ao mesmo jejum (abstinência) para a Sexta Feira Santa, em honra à Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz.
Essas práticas sacrificiais são tanto ofertas a Deus, em reparação pelos nossos pecados e pelos pecados de nossos irmãos e irmãs, quanto exercícios de auto-disciplina, uma qualidade raríssima nesses tempos de culto à auto-gratificação instantânea e irrestrita que vivemos hoje. A prece nos lembra de que somos criatura, e não Criador, e a Ele devemos toda honra, todo louvor e toda glória. A esmola nos lembra de que temos a obrigação de amar nosso próximo, criatura de Deus assim como nós. E o jejum nos faz mortificar a carne: disciplinamos nosso corpo a aceitar que ele é apenas uma roupa que veste nossa alma, e não o ator principal que está no comando.
Um histórico do desenvolvimento da tradição da Quaresma e dos jejuns/abstinências correspondentes (em inglês) se encontra em http://www.newadvent.org/cathen/09152a.htm. Aliás, o site newadvent é um excelente recurso de consulta sobre questões de Catolicismo em geral.
A propósito, pesquisando agora para escrever esse post descobri que a obrigação real é pouquinha coisa mais rigorosa: o chamado "jejum da igreja", que consiste em café da manhã frugal (chá/café/suco + torradas/biscoitos - esses últimos em pequena quantidade), uma refeição completa na hora do almoço e uma "meia refeição" (a chamada "colação": chá/café/suco + uma quantidade pequena de comida leve) na hora da janta, sempre sem carne vermelha nem álcool. Francamente? Coisa fácil, se a gente tiver um módico de vergonha na cara.
Agora para a parte de protesto do post (não seria um post do Águas se não tivesse isso...): Quaresma de verdade ignora solenemente a "Campanha da Fraternidade" (CF), essa invenção horrorosa da banda podre da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A CF é pura Teologia da Libertação (TL, um assunto que renderia outra postagem polpuda), sempre falando de algum tema absolutamente alheio à trinca Conversão, Arrependimento e Penitência que deve caracterizar nossas ações, práticas piedosas e meditações durante o período quaresmal.
Ano passado a CNBB já tinha tomado uma reprimenda direta de Sua Santidade Bento XVI, falando a esse respeito, por conta do tema da CF 2011. Primeiro que o tema foi de ecologia, tirando o foco dos fiéis do Criador e direcionando para a criação: teologicamente um erro crasso, fruto de uma atitude totalmente anti católica. Segundo que a exegese que fizeram do versículo que diz "A criação geme, como que com dores de parto", foi desonesta ao extremo. O trecho em questão (Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 8, versículo 12) fala não do que fazemos com a criação, mas da ansiedade nossa e de todas as criaturas no aguardo da Parúsia, a Segunda Vinda do Cristo no Fim dos Tempos.
E agora, para a CF 2012, desandaram a maionese de vez. COMO ASSIM, "conscientização sobre saúde pública"?!? Agora, em cima de desrespeitarem a obrigação de meditar sobre CONVERSÃO, ARREPENDIMENTO E PENITÊNCIA, ainda tratam de um assunto deste mundo sem sequer tentar disfarçar?!!!? Miserere nobis, Domine Deus, miserere nobis! Dessa vez passaram de todas as medidas! Senhores, já de há muito que eu não contribuía para as coletas da CF. Ultimamente tenho feito ouvidos moucos, em silêncio, aos trechos de sermões que eu percebo como infectados por TL. Agora convoco os leitores: cada vez que o padre começar a falar da CF, paremos de ouvir e rezemos mentalmente um Credo, que ganharemos muito mais.
Agora retornando a uma nota mais amena: outro recurso internético de informações sobre a Fé é o blog do Padre Paulo Ricardo, no endereço http://padrepauloricardo.org/.
Além de uma extensa série de materiais gratuitos, uma contribuição mensal de 30 reais dá direito a acessar alguns cursos de formação teológica mais específica e/ou mais substanciosa. Eu particularmente acho que vale muito a pena.
De resto, nesse meio tempo arranjei um emprego como tradutor/revisor técnico-científico de inglês-português-inglês na Solução Supernova Consultoria Farmacêutica e estou um pouco menos longe de obter meu título de Doutor (eu acho que o meu orientador acadêmico é um caso de polícia, mas já ouvi dizer que todos são...). Vamos ver se tomo vergonha na cara e não demoro tanto a escrever o próximo post.
In corde Jesu semper, pax et bonum.
19 de outubro de 2009
Paternidade
O tema de hoje é um arroto medieval deste que vos digita, um relato de como se pensava em priscas eras e de como se educava uma criança nos tempos d'antanho. Por que analisar minhas filosofias de vida é um verdadeiro estudo de arqueologia mental e moral. Portanto, se você leitor fizer parte do time do politicamente correto, acreditar que em criança não se bate nem quando ela chuta o andador do vovô na hora de atravessar a Av. Paulista ou achar que não existe problema de natureza alguma em permitir que um casal homossexual adote uma ou mais crianças, vá para o blog da Carolina Dieckmann que você ganha mais.
Pois muito bom, você leu a advertência acima e ainda está aqui? Então não diga que eu não te avisei. Vamos lá, que hoje eu estou inspirado!
Antes de mais nada, uma questão crucial na educação de um filho é a obrigatoriedade, desde a mais tenra idade, do ingrediente DIS-CI-PLI-NA. Por que se você passa a mão na cabecinha de uma criança recalcitrante por que ela tem o direito de ser criança, achando que é melhor deixar para ensinar educação, bons modos e disciplina só depois, na hora que ela estiver crescidinha o suficiente para que se lhe possa cobrar responsabilidades, é receita certa para o desastre.
Faz parte da natureza humana destreinada não aceitar de bom grado a imposição de limites. Mas a não imposição de limites presenteia logo de saída todo e qualquer pimpolho com ela agraciado com o pior problema-raiz de uma personalidade mal formada, seja ela simplesmente chatinha ou até efetivamente repulsiva: o baixo limiar de frustração, ou seja, a incapacidade de aceitar quando a vida olhar na cara do distinto e disser não.
A criança que passa a infância sem uma imposição suficiente de limites se transforma em um adolescente que acha que o mundo tem a obrigação de lhe dar tudo o que ele deseja no exato instante em que ele quer e se torna posteriormente um adulto frágil e inseguro. Seja um frouxo patético desse que mora com os pais aos 40 anos, seja um monstro que disfarça sua fragilidade sob camadas e mais camadas de violência e arbitrariedade ("vou bater no mundo primeiro antes que ele me bata, e vou bater com gosto pra todo mundo achar que eu sou o bom"). Ou como diz Içami Tiba: toda crioncinha evolui para aborrescente, que por sua vez se torna um adultescente.
Crianças são seres humanos com pouquíssima bagagem mental de suporte para seus processos decisórios, logo, nada mais natural que o resultado da esmagadora maioria destes deva ser solenemente desconsiderado por quem quer ser um bom pai ou uma boa mãe. Daí diziam os antigos que criança não tem querer. Não tem e não deve ter, até que tenha vivido o suficiente para acumular um repertório de experiências e informações que lhe permita tomar decisões minimamente não-desastrosas.
Criança não escolhe o que vai comer, não escolhe o que vai vestir e não escolhe a hora de dormir. Simplesmente por que comida gostosa a mais das vezes não é nutritiva e criança não entende patavina de nutrição e medicina; roupa bonita mais das vezes é obscenamente cara, emburrecedora/padronizadora (não permita que seu rebento se torne escravinho da moda logo de saída) ou simplesmente inadequada para o tempo que está fazendo na hora ou para as atividades programadas para aquele determinado momento e pivete não tem noção de chongas disso tudo; e por que quem tem escola está pouco se importando com o relógio biológico dos alunos, que tem mais é que acordar cedo em uma fase da vida na qual o cérebro estaria originalmente programado para um outro ciclo de sono, então você pai e você mãe tem que ajudar seu pequenino desde o início a empurrar o relógio biológico no sentido de não dormir a aula toda quando chegar a idade de ir pra escola.
E tantas e tantas outras coisas comuns a quem tem em casa uma maquininha burra de chorar e dizer não-quero, que se explicam por que o ser humano é burrinho e crianças são, por definição matemática, ignorantes. Atentem para a diferença entre ignorância e burrice. Burro é quem não sabe pensar, ignorante é quem ignora alguma coisa.
Crianças são inteligentíssimas, toda criança nasce genial e nós adultos é que a estragamos com uma educação inadequada. Mas toda criança vem ao mundo 100% ignorante, o que significa que seus processos decisórios terão más escolhas por conclusão em 99,9...% dos casos. É obrigação do pai e da mãe desconsiderar essas más escolhas e fazer o que é melhor pelo pequenino. E é obrigação de ambos ensinar a criança a se conformar com isso, por que é inerente ao ser humano estar mal informado e decidir mal em muitos e muitos pontos de sua vida, devendo ele saber quando a vida está tomando uma decisão melhor no lugar dele ou quando uma determinada pessoa em posto de comando por merecimento tenha as informações necessárias para decidir melhor em seu lugar ou ainda quando a natureza humana tem que calar sua boca e curvar-se ante a Sabedoria do Altíssimo.
Aqui vem outro ponto inegociável para pais que foram abençoados, neste mundo perdido de hoje, com a Graça de se manterem firmes dentro da verdadeira Igreja. Essa história de que toda religião tem seu ponto positivo e que a pessoa escolhe sua fé quando tiver idade suficiente para fazer sua própria escolha é balela (peguei leve para não lançar mão de um palavrão de 59 sílabas). Mentira deslavada, uma das mais perniciosas já inventadas pelo pai da mentira.
Se você foi abençoado com a Graça de ser católico, que teus filhos também o sejam. Isso é 1000% I-NE-GO-CI-Á-VEL! Se você não instila em sua cria o temor do Senhor desde o berço, as chances de que esta alminha se perca para algum outro sistema de crença ou até mesmo para a descrença sistemática é imensa. Não que "religião seja um condicionamento que só pega por que é feito à guisa de lavagem cerebral sobre criancinhas que não têm condição de argumentar", mas por que a carne se rebela contra a Lei.
Chocolate é uma delícia, mas não é por isso que uma pessoa vai se empanturrar sem consequências. Tem muito legume que é realmente chatinho de comer e a gente só manda pra dentro para cuidar da própria saúde. E por aí vai. Agora, ninguém em sã consciência vai abrir a boca para me dizer que é lavagem cerebral convencer uma criança desde pequenininha que ela deve comer aquilo que seus pais mandarem por que é melhor para sua saúde corporal.
Então por que cargas d'água tanta gente abre a boca para dizer que é lavagem cerebral ensinar alguém desde a mais tenra idade a obedecer a Deus por que isso é melhor para a sua saúde espiritual? Por que sexo é uma delícia, mas não é por isso que nós vamos sair por aí brincando de chimpanzé bonobo. A sensação física de se tomar um porre é para muitos realmente agradável, e nem por isso vamos sair por aí chapando o coco por diversão. E por aí vai!
Fora que quanto mais tempo alguém fica fora da barca de Pedro e exposto aos diversos cantos de sereia criados por aquele que é homicida desde o início dos tempos, mais seus ouvidos endurecem contra a são doutrina da Fé e mais difícil é a cura de tal alma. Portanto, não permita que seu filho ou filha "escolha a religião depois". Faça o que é melhor para ele/ela, que te agradecerá imensamente no futuro, como agradeço a meu pai.
Por que hoje eu leio a Summa Theologica e o Catecismo da Igreja Católica de moto-próprio, e leio a Bíblia desde os 15 anos por gosto meu, mesmo, mas devo isso a meu pai ter me levado para a Missa todo bendito domingo desde que eu me entendo por gente e provavelmente ainda antes. E estudo a fé e a sustento hoje com argumentos racionais e o amparo das Escrituras, da Tradição Apostólica e do Magistério da Igreja, dentro das minhas forças, mas foi papai quem me ensinou a rezar. Pois vos digo e repito: façam o mesmo por suas crianças, que vos agradecerão imenso!
Uma vez que se dê a uma criança disciplina e temor de Deus, o resto vem por consequência. Sabendo que o corpo é templo do Espírito Santo e tendo limiar de frustração elevado pelo treino da disciplina, a pessoa não erra contra a temperança e sabe manter-se casta. Mantendo a temperança a pessoa não se prejudica por glutonaria, bebedeiras ou uso de estimulantes e entorpecentes. Sendo casta, não faz filhos antes do tempo, não padece com DSTs e não passa por todas as agruras da vida de alguém afligido por atração pelo mesmo sexo.
Assim, fica a receita para educar um futuro adulto feliz (e para ler comentários raivosos de relativistas e analfabetos funcionais): um chinelo na mão esquerda e a Bíblia na mão direita!
13 de outubro de 2009
Depois de um longo e tenebroso feriado...
São 3:12h da madruga e estou passando por uma noite de rei, graças à ressaca do churrasco de sábado: passei o domingo visitando o trono regularmente e agora nessa madrugada a coisa se acentuou. Espero que esse surto final limpe meu tubo digestivo do resto do meu envenenamento por Heineken (cervejinha de %erda...).
De qualquer modo, hoje vou escrever sobre uma coisa que eu odeio com todas as fibras d'alma: novela. Aqueles enredos manjados recheados de interpretações histriônicas e ataques sistemáticos à moral e aos bons costumes.
Sim, ataques sistemáticos à moral e aos bons costumes. Toda novela, não importa qual seja a emissora ou até mesmo o país de origem, tem sempre pelo menos um matrimônio dito "disfuncional" para o qual a "solução" apresentada é um adultério ou dois, seguido ou não de divórcio. Detalhe: todos os casos em que ocorre apenas um adultério demonizam o cônjuge traído e apresentam-no como "culpado" e "merecedor da galha", enquanto apresentam o cônjuge traíra como "vítima", "herói/heroína" e "muito digno por buscar sua felicidade".
Fora isso, amor=sexo é uma equação totalmente em alta no meio novelístico. Essa história de se preservar/guardar para o casamento sequer é cogitado. Todos os namoros novelísticos são fartamente regados a sexo, para personagens a partir dos 18 (e sabe Deus até quando vai essa restrição de idade, vai que Polansky finalmente faz escola por aqui).
Aliás, religião em novela é um caso a parte. Em nome da tolerância, do multiculturalismo e da "civilidade", todos os sistemas de crenças são eventualmente retratados nos personagens da teledramaturgia, sempre com muito respeito. EXCETO OS CATÓLICOS. Todo católico é retrógrado, hipócrita, fanático, obscurantista, mentiroso, fraco ou estúpido, isso quando não é um caso de "junta" (junta tudo e joga fora). Todo padre de novela tem amante(s), larga a batina ou serve ao dinheiro ao invés de servir a Deus.
Completando o febeapa (para quem não conhece Stanislau Ponte Preta: FEstival de BEsteira que Assola o PAís) televisivo, de uns tempos para cá é difícil eu ter notícia de uma telenovela que não tenha um núcleo sodomita. Quando não é um par de pederastas é um par de sáficas, e o grande burburinho da mídia fica sobre "essa censura moralista e hipócrita que não permite beijo gay em novela". Que bom que pelo menos esse limite ainda resiste, ora pílulas!
Enfins, agora que tratei dos problemas mais graves, vamos à posta restante. Digamos que você leitor não creia, e ache que tudo o que digitei até o momento foi apenas um arroto medieval em plena era dos terabites. Pois vou mostrar que mesmo você deve largar mão de assistir novela e ler algo no lugar, nem que seja Paulo Coelho (outra droga, mas desse eu falo em outra postagem).
Começa que roteiro de novela nunca é um roteiro só. Até aí tudo bem, subtramas e tramas paralelas são um ingrediente importante em boas obras de ficção, enriquecendo o texto final e auxiliando no desenvolvimento mais rico da trama principal. Mas isso só é válido para boas tramas principais auxiliadas por tramas paralelas e subtramas de qualidade no mínimo mediana. Caso contrário, teremos apenas mais lixo pelo seu tempo investido.
O problema básico do formato telenovela é a correlação entre tempo ficcional e tempo real, que é mantida constante em "1c:1d" (um capítulo de novela retrata um dia de tempo real), à exceção dos flash-backs e flash-forwards. Uma vez que se retratam 24 horas de roteiro em um condensado de 1 hora com intervalos comerciais, não é possível apresentar tramas acima de um determinado nível de complexidade por limitação de tempo. E se você adiciona a essa limitação natural a necessidade de dividir o tempo de cada capítulo em núcleos ou tramas auxiliares, tramas paralelas e subtramas, aí é que o nível de complexidade permitido para cada trama ou subtrama individual vai para o chão de uma vez e, com isso, temos garantia de mais lixo por nosso tempo investido em assistir.
A consequência inevitável é a padronização dos roteiros, tratada magistralmente no post http://blog.desfavor.com/2009/09/desfavor-explica-novelas-da-globo.html, do blog Desfavor. Seus redatores expuseram fartamente todos os furos mais clássicos de roteiro das produções da Vênus Platinada e, se as melhores são assim, o resto então nem se fala. Mas vale a pena jogar sal em algumas das feridas apontadas, para ver os noveleiros deste meu Brasil varonil esperneando.
Começa que é mesmo inegável que novela é feita para anestesiar os socialmente desfavorecidos, para empurrar goela abaixo do povão que ser pobre é uma delícia e ser rico deve ser mesmo um calvário. Todo rico é mostrado como mau e antipático, à exceção da mocinha que é quase sempre albina, anoréxica e herdeira inocente de uma fortuna sangrenta.
Falando em mocinha, essa parte do par romântico é uma história à parte. Os desentendimentos padrão e as idas e voltas do costume antes que esse par se case, sempre no último capítulo da trama, são a parte mais bur(R)ocrática do roteiro. É sempre uma combinação linear de alguém com interesse romântico em um dos dois, intriga de falsos amigos, implicância da família e problemas com desnível social. A única novidade de que tive notícia na área foi colocarem mocinhas enfrentando doenças.
Outra coisa é que todo personagem de novela é personagem plano (protagonistas e coadjuvantes importantes) ou tipo (todo o resto). Resultado óbvio da correlação 1 para 1 apontada acima, pois se os segmentos de enredo devem ser simplificados ao máximo igualmente simplificados devem ser os personagens. Com isso, temos a inflação sistemática de vilões demoníacos, heróis a la Superman e personagens estereotipados de todos os matizes.
Evidentemente todos escolhidos a dedo para que a patuléia ensandecida continue acreditando piamente que sua vidinha medíocre é maravilhosa, não há por que querer progredir e inclusive isso de querer melhorar de vida é coisa de vilão, por que afinal de contas ambição é um defeito horroroso e uma vaidade sem tamanho: "Onde já se viu, alguém estar insatisfeito com a própria vida e querer ter e ser mais?", é o que dizem reiteradamente de forma direta todos os personagens ambiciosos de núcleos pobres de forma direta (e de modo indireto e um pouco menos ostensivo todos os demais).
Senhores, um momento de raciocínio, por favor, obrigado. Evidente que não estou aqui fazendo apologia ao pecado de Lúcifer (que caiu por orgulho), mas demonizar uma personagem automaticamente pelo simples motivo de que esta declara desejar uma vida melhor para si é de um despautério a toda prova. Existe orgulho besta, que bota as pessoas em volta do "orgulhoso" para baixo na base do pisão e da humilhação, e existe a vontade de progredir. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Vontade de progredir TODO MUNDO TEM QUE TER.
Continua que a simplificação extrema dos roteiros exigida pelo emparelhamento do tempo de novela com o tempo real obriga cada capítulo a ser um primor de tédio e chatice, pois tramas simples geram capítulos simples e repetitivos. É a famosa sensação de que, após as duas primeiras semanas decorando os nomes e funções de todo mundo no folhetim acompanhado, basta assistir a um capítulo por semana que já está de mau tamanho, por que é sempre a mesma coisa todo santo dia.
E termina que o fim de cada personagem é sempre de uma previsibilidade rançosa. Mocinhos felizes, mocinhas casadas e com filhos, vilões derrotados ao final, pobres fazendo festa, ricos se redimindo de sua riqueza, pares homossexuais "reconhecidos pela sociedade e vivendo felizes seu casamento" e assim por diante, ad infinitum et ad vomitorium. E como todos os personagens terminam sempre do mesmo modo, todos os capítulos finais são idênticos, por definição matemática. O que torna particularmente deprimente o comportamento de quem se altera em função de um último capítulo de novela que, diga-se de passagem, TEM REPRISE NO SÁBADO PARA QUEM PERDER NA SEXTA, então não é verdade sequer que último capítulo só tem uma vez, como uns e outros ainda tentam alegar.
Antes que alguém me acuse de hipocrisia, por acreditar que é preciso assistir para saber de tudo isso, digo que assisti novela até Celebridade, mas é como se eu assistisse até hoje. Os motivos são dolorosa e constrangedoramente simples:
1) Os roteiros "telegráficos" fazem com que basta você assistir à chamada da novela nos intervalos comerciais da programação normal para que você efetivamente acompanhe o desenvolvimento da trama. Se o seu QI for de 100 pontos (normal), não é preciso assistir mais que as chamadas ao longo dos intervalos comerciais.
2) Há toda uma imprensa especializada capitalizando no público fiel desse segmento da produção televisiva, e essas publicações ocupam um espaço significativo nas bancas de jornal, o que torna impossível comprar jornais e revistas de outros assuntos sem esbarrar com os olhos em manchetes que atualizam os poucos que conseguem escapar às vinhetas.
3) Quem assiste novela não consegue conversar por mais que 5 minutos sem mencionar seu vício e obrigar seu interlocutor a acompanhar suas opiniões sobre o que está acontecendo com tal e tal personagem (geralmente alguém do par romântico, um vilão ou um alívio cômico - este último um tipo ainda mais insosso e estereotipado que a média, caracterizado por um "bordão" ou cacoete que a patuléia sempre achará hilário e fará questão de reproduzir para teu desprazer estético e intelectual como se aquilo fosse o fino da bossa).
E como apontaram com precisão cirúrgica no blog que mencionei ao final da lista de deméritos morais da teledramaturgia nacional, ai de quem ousa se erguer contra esse instrumento de emburrecimento em massa, contra esse genocídio de neurônios que é a novela de televisão. Por que falar mal de novela é de um elitismo imperdoável, infinitamente mais esnobe que não ler Paulo Coelho ou não ouvir música "popular" (pagodinho de plástico - um fanho cantando e 6 epilépticos surtados fazendo dancinha tosca no fundo do palco -, axé, funk carioca, porno-forró ou sertanojo/breganejo). Fenômeno típico de republiqueta de banana movida a pão e circo (aliás a muito mais circo que pão), onde a mídia trabalha junto com os donos do dinheiro para destruir sistematicamente o discernimento dos extratos mais baixos da sociedade.
O que arrebenta com uma republiqueta de banana no longo prazo é o fato de que essa destruição da capacidade de discernimento do povo destrói a produtividade da força de trabalho nacional, inviabiliza o funcionamento das instituições e oblitera a produção cultural do país, pois um povo que não pensa não tem senso estético para produzir arte, não raciocina para manter o funcionamento das instituições (a bem da verdade sequer as compreende, quanto mais lhes compreende a necessidade e o como mantê-las) e não tem mais competência sequer para apertar botões e operar maquinário. As telenovelas ajudam sobejamente nesse processo de emburrecimento, ao atacar as fundações morais do povo e dopá-lo (Marx só disse que a religião é o ópio do povo por que não tinha telenovela na época dele...).
Uma associação óbvia é sexo&drogas (só faltou o rock&roll?): a novela anestesia o povão geral e ainda incentiva a fazer filhos! Já repararam como cada nascimento em novela é super-hiper-mega-master-blaster festejado? Como cada nova mamãe é um ser tão mais feliz e realizado que as personagens femininas que abrem mão da maternidade para ter uma carreira ou tomam qualquer outra decisão igualmente razoável que as leve a não procriarem como coelhas no cio? E ninguém fala em controle de natalidade (o método Higgins de acompanhamento do muco cervical funciona sim, confiram junto à WHO - World Health Organization ou Organização Mundial da Saúde, da ONU - ou chequem este link, mais fácil: http://vida.aaldeia.net/metodo-muco-cervical-billings/), ou em como o mundo de hoje está mau e perigoso para quem quer ter um filho e criá-lo com um mínimo que seja de correção moral.
Claro que falar mal de droga para um drogado é pedir para apanhar, daí a reação explosiva e apaixonada de todo noveleiro quando lhe apontamos o ridículo daquilo que assiste. O que é garantia de "silêncio olímpico" da maioria dos meus eventuais leitores (os poucos tarados que superarem as barreiras psicológicas impostas pela extensão textual e vocabular de minhas arengas - bem como por seu pedantismo) e esperança de resposta de algum fã mais exaltado de folhetim.
Despeço-me para voltar ao troninho pela quarta vez ao longo de minha insônia e aguardo os garfos de feno, as tochas e os uivos da multidão enfurecida. Forte abraço!
13 de julho de 2009
Completando o aviso de ontem
Aos que notaram a ausência de assuntos religiosos na programação apresentada ontem, explico: estou lendo o Catecismo completo da Igreja Católica, para não emitir opiniões que estejam em desacordo com a sã doutrina da fé.
Quando concluir essa leitura, passarei a incluir postagens sobre dogmas católicos e sua repercussão na vida de um fiel que verdadeiramente se proponha a viver em conformidade com as leis da Santa Madre Igreja. Acredito que esses posts incluirão surpresas até mesmo para quem se acredita um bom católico, pois estudarei o Catecismo com mais afinco nas partes que me autorizarem a apontar como inadequadas ou até mesmo errôneas algumas demonstrações "equivocadas" de religiosidade, tais como a impressão dos famosos milheiros de "santinhos" como "pagamento" por graças alcançadas, como se o Altíssimo fosse um enorme "caixa automático divino", onde o fiel põe um cartão-promessa, digita a senha "novena poderosa não sei das quantas" e saca uma graça.
Aproveitando que eu pedi orientação ao meu padre confessor em relação a essa questão específica, já informo a vocês, leitores: essa manifestação equivocada de religiosidade é mais que inadequada, ela é ERRADA, mesmo. Não se barganha com o Pai Eterno. A verdadeira prece é um diálogo com Deus, através da qual nos dispomos a conformar nossas vidas com a Sua Vontade.
Mas o detalhamento desse ponto, um eventual estudo (rápido, não dá para tuchar um estudo de antropologia e história da religiosidade humana em uma postagem de um blog) de como esse tipo de "devoção" evoluiu na cultura religiosa brasileira e a completa demonstração de como, por quê e quanto isso é ERRADO até o último santinho de Sto. Expedito, eu deixo para depois que eu concluir minha primeira leitura completa do Catecismo.
Paz e bem!
26 de junho de 2009
Liberdade de expressão
Vem disso, do fato de que o ato sexual é um momento de intimidade tão grande e tão absoluta que forçosamente deixa uma marca, um elo, entre as pessoas que o praticam. Por mais mínimo que seja, mas deixa. E o sexo foi feito assim justamente (entre outras coisas) por esse motivo, para que o casal que escolheu unir suas vidas tenha mais e mais motivos para permanecer mais e mais unido. Por que o sexo em si mesmo é bom, mau é o mau uso que se faz dele. De resto, assim como qualquer outra parte da criação, diga-se de passagem. Fazer sexo só por fazer sexo é tão incompleto e inadequado quanto comer por gulodice. Alguém que sai transando só pelo prazer é como um gordinho que se entope de chocolate só por que é gostoso. Da mesma forma, o sexo dentro de um casamento feliz é um momento abençoado de felicidade e completude, da mesma forma que uma refeição em família, em uma mesa cercada de parentes e amigos que conversam e riem felizes por estar contigo, é um momento de felicidade e união."
Simples, mas quem não crê, e principalmente quem não quer crer vai achar dificilímo de entender ou mesmo verdadeiramente insano/ininteligível. Em verdade, estreita é a porta e árduo o caminho para a salvação, e a sabedoria de Deus é loucura aos olhos dos homens! Mas antes que alguém venha me chamar de santo ou beato, já informo que cometi muitos erros ao longo da vida e os cometo até hoje. Sou humano, ora, pílulas! O que nos diferencia enquanto católicos é que nós nos sabemos peregrinos nesta terra e, apesar das constantes quedas, nos esforçamos para nos manter em pé e caminhando rumo à Jerusalém Celeste. Minha vontade ainda não se conformou totalmente à do Pai Eterno, mas sempre que eu me lembro eu peço que o Altíssimo torne meu coração mais conforme ao Seu. Justamente por isso, também, é que temos o sacramento da Reconciliação (a.k.a. Confissão e penitência).
Outra atitude, menos comum e mais "gentil", é uma espécie de condescendência intelectual, essa já mais característica dos ateus, muitos dos quais acham que somos "coitadinhos" necessitados de "esclarecimento". Já me perguntaram se eu corri de volta para a fé por causa de algum perrengue na vida. Como se a Fé fosse um escapismo, característico de pessoas fracas e incapazes de enfrentar a realidade de forma racional. Não, senhoras e senhores, não é escapismo compreender que há uma Causa Primeira para o Universo e que essa Causa Primeira é um Deus pessoal e que nos ama. Convido quem estiver disposto a uma senhora aventura intelectual a ler a Summa Theologica de Tomás de Aquino (aviso, está em inglês): http://www.newadvent.org/summa/. Vai levar um tempão, pois são 4 longos livros, eu mesmo ainda estou no começo. Mas realmente vale a pena para quem quer entender melhor como pensa a ICAR. Também recomendo, nesse sentido, o Catecismo da Igreja Católica (em português de Portugal, e ainda preciso ler inteiro e com calma - até agora só tinha lido o Compêndio, que é uma versão abreviada sob a forma de perguntas e respostas): http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html.
Também não posso esquecer dos relativistas espirituais, que acreditam que toda forma de religiosidade é positiva e nos acusam de "querer monopólio". Aí vai um debate individual com cada um, que não caberia aqui (o post já está gigante até na minha opinião). Mas cabe mais uma digressão, para aqueles que dizem que toda e qualquer religião institucionalizada é apenas um clubinho onde se reunem pessoas geográfica e/ou consangüineamente próximas. Para estes, deixo meu testemunho pessoal de único católico fervoroso da família e as conversões que presenciei tanto pessoalmente (no grupo de catequese para jovens e adultos de minha paróquia, que convenci minha esposa a freqüentar antes de nos casarmos na Igreja) quanto à distância (testemunhos e reportagens no periódico católico This Rock, da Catholic Answers - http://www.catholic.com/magazines/thisrock.asp), bem como a sugestão de pesquisar sobre movimentos missionários e congregações como a dos Vicentinos e a dos Jesuítas.
Finalmente, a velha história de falar de padres pedófilos como última barreira para nos mandar calar a boca. Cabe informar que, segundo me consta, um procedimento comum da Igreja é transferir os acusados de pedofilia para regiões distantes do local da acusação, com os seguintes objetivos: