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17 de março de 2011

Só para dizer que não esqueci do blog...

Mais de ano que não escrevo aqui, caramba!

Bom, fora o tanto de tempo que o Doutorado me toma, andei meio sem inspiração para escrever. Até falaria contra essa onda estúpida que está rolando por aí de neo-ateísmo, com os livros de figurelhas feito Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Daniel Denet e Sam Harris, mas já tem gente bem mais capacitada que eu refutando essas antas.

Ficam aqui as dicas de 4 excelentes blogs na área:

http://lucianoayan.com.br/ - é o pai da matéria, trabalha trucidando todas as manifestações da mentalidade revolucionária. Excelente argumentação, só peca um pouco por vezes ao adotar uma abordagem "voadora no peito", mas isso é até compreensível dado o nível de tosquice dos comentadores que tentam desafiá-lo na caixa de comentários.

http://quebrandoneoateismo.com.br/ - meio que um spin-off / complemento do primeiro, mais especializado no combate ao neo-ateísmo.

http://neoateismoportugues.blogspot.com/ - exemplos escolhidos à dedo do "melhor" do neo-ateísmo lusitano, dissecados para fins de estudo e refutação.

http://www.franciscorazzo.com.br/ - blog mais de filosofia, onde volta e meia são apresentados mais alguns argumentos e exemplos esclarecedores de que Fé e Razão NÃO se opõem.

Em termos de leituras, tenho mergulhado fundo em Filosofia, e encontrei um autor nacional totalmente polêmico pelo simples fato de ser conservador até à medula: Olavo de Carvalho. Tirando os fatos de ser ele tabagista inveterado, cético climático e favorável à astrologia (hei! Ninguém é perfeito!), poucos escrevem com tanto acerto e discernimento sobre políticas nacional e mundial e temas filosóficos em geral.

Outro autor que encontrei (por indicação de OC), igualmente nacional, é Mário Ferreira dos Santos. Este já é uma verdadeira ave-rara, no sentido mais pleno da expressão. Conciliando os pontos positivos de autores tão distintos quanto Pitágoras, Nietzche, Tomás de Aquino e Heidegger, dentre outros, criou uma obra tão vasta quanto única. Uma pena que os trabalhos de edição e revisão de seus textos tenham sido tão mal conduzidos até o momento, mas para quem tiver paciência para passar por cima disso e reconstruir os textos ao longo de cada leitura fica a dica de um marco na história da filosofia mundial: Filosofia Concreta. Sendo o ápice da construção de seu sistema filosófico próprio, pede, no mínimo, a leitura prévia dos títulos anteriores "Tratado de Simbólica", "Pitágoras e o tema do Número" e "Lógica e dialética - pentadialética, decadialética e dialética", leitura essa igualmente laboriosa.

De resto, cuidando da saúde como nunca. Tive uma bela perda de peso (de 119kg a 95kg em 4 meses e meio) em função de uma reeducação alimentar (por que regime é coisa temporária e destinada a falhar) intensa que me obrigou a me tornar bastante criativo na hora de preparar saladas, legumes, cereais variados e grelhados magros. A única parte que considero verdadeiramente chata é que sobremesa agora, para mim, é fruta ou fruta. E se eu não quiser, também pode ser fruta. Bom, vocês entenderam.

Ah, talvez ano que vem eu poste de novo. Até mais!

22 de setembro de 2009

Música 1.1

Senhores, boa noite.

Na falta de televisão (tem coisas que só a NET pode fazer por você - vão tomar no SKAVURSKA!), soco mais meio post nesse meu bloguinho querido. Meu trabalho de tradução terminou e o pagamento virou novela mexicana. Quem acompanha meu Facebook já está sabendo. Assim sendo, voltei a ter tempo de postar de vez em quando, ao invés de de vez em nunca.

Falei de música Clássica/Erudita Contemporânea, destrinchando um pouquinho de Arvo Pärt e de Philip Glass.

Agora quero falar só um tiquinho de Iannis Xenákis e de Terry Riley.

Começando com o grego (de sangue, pois é romeno de nascimento e francês em termos de vida adulta, mas gato que nasce no forno não é biscoito): alguém aí lembra que Pitágoras associou música a matemática, com as proporções numéricas das escalas musicais? Pois Xenákis elevou o conceito à enésima potência e lascou dois ovos fritos em cima. A partir de software próprio, desenvolvido em um departamento universitário de matemática, este arquiteto e artista multimídia compôs músicas a partir de funções matemáticas, estocásticas (funções de probabilidade, as que o Oswald de Souza usa para fazer suas "previsões" sobre loterias - acabei de entregar minha idade, snifs...!!!) inclusive.

Como não bastasse esse método absolutamente (im)pessoal de composição, Iannis resolveu dedicar sua vida a mostrar para o mundo o que é ser realmente multimídia. Algumas de suas principais obras, as polytopes, foram compostas para serem apresentadas no interior de estruturas arquitetônicas especialmente projetadas, onde são acompanhadas por shows de luz e até recital ou leitura de textos específicos. O exemplo máximo é a diatope La Legende d'Eer, na qual a estrutura arquitetônica abrigaria show de luzes, projeção de 5 textos específicos em momentos chave da obra e disposição surround da música em 8 trilhas por caixas de som posicionadas de forma estratégica.

Junto com Kraanerg, é apenas para iniciados. Uma primeira experiência pode ser a faixa Metástasis: http://www.youtube.com/watch?v=SZazYFchLRI&NR=1 Mais ilustrativo ainda é assistir a versão "espectral", em que o ponteiro branco percorre o diagrama que gerou a música (acho que através de seu software UPIC, que converte gráficos matemáticos em música - Iannis compôs muita coisa mandando o UPIC mastigar estruturas que ele traçou a partir de conceitos arquitetônicos e funções matemáticas).

Pleïades também é bastante palatável para o ouvinte destreinado, toda composta para marimba/xilofone. As demais obras pedem pelo menos um pouco de disciplina da parte do ouvinte, mas são verdadeiramente recompensadoras.

Já Terry Riley é o rei dos loops. Com uma filosofia composicional muito próxima à de Philip Glass, alia o trabalho de filigrana a um tratamento extensivo ao máximo de cada material sonoro, com obras hipnóticas nas quais cada padrão sonoro é sutilmente variado por tanto tempo quanto é possível sem a introdução de um novo elemento na estrutura da música. Bastante difícil para o ouvinte "cru", o ideal seria aclimatar-se inicialmente ouvindo Philip Glass até que se tenha educado o ouvido para apreciar "Descent in to the maelstrom" ou "Music with changing parts", ponto a partir do qual se está capacitado para fruir até mesmo da música de mestres da duração extendida como Morton Feldman e La Monte Young.

Vivo e na ativa, este californiano estudou música com o grande professor indiano de música vocal Pandit Pran Nath (que também deu aulas para Young), entre outras influências. Sua sonoridade mais característica pode ser apreciada em pérolas como A Rainbow in Curved Air, In C, La muerte em medias calladas negras, Poppy Nogood and the Phantom Band e Dorian Reeds. Seu uso criativo de loops gravados o põe lado a lado com Morton Feldman e La Monte Young na galeria dos compositores de duração extendida, com seus All Night Concerts (imagino como deve ter sido lisérgico levar um saco de dormir para o local do concerto e dormir exposto a um tal tônico neural).

O minimalismo, como deve ter transparecido de Philip Glass e dos compositores adeptos das peças de duração extendida, é um estilo musical para quem gosta de pensar no que está ouvindo, ao invés de apenas deixar a música entrar pelos ouvidos adentro e ponto final. Sua apreciação não é instintiva, mas cerebral. Resumindo: não é música para dançar.

Não lembro onde li isso, mas há quem divida as pessoas em dois tipos básicos de ouvintes musicais: os Dançantes e os Analíticos.

Um ouvinte Dançante apreciaria música de forma instintiva, única e exclusivamente em função de seu caráter lúdico. Se a música tem um bom ritmo e a melodia não desagrada, está valendo, não há uma preocupação mais significativa com harmonia ou letra. Um exemplo característico é o ouvinte de axé (já deu para perceber que me classifico como Analítico?).

Já um ouvinte Analítico tem uma abordagem holística, apreciando simultaneamente melodia, harmonia, ritmo e letra (quando cabível, claro). Se um dos componentes for deficiente e não houver compensação suficiente da parte dos outros, este tipo de ouvinte não consegue apreciar a música em questão. Exemplo de abordagem Analítica é o por que este tipo de ouvinte tem um colapso estético quando exposto a axé ou funk carioca: embora os ritmos sejam tecnicamente bem executados e até envolventes e haja uma opção sistemática (eu diria que até racional, em função da predominância da componente rítmica) pelo pouco ou nenhum uso de harmonia, as melodias são pobres e as letras insuportáveis. Por que para um Analítico uma letra ruim "mata" uma música que de outro modo seria boa.

Concluindo essa digressão, música minimalista é um gênero apreciado por excelência por ouvintes analíticos, e música minimalista de duração extendida é uma paixão para analíticos hardcore.

Hipnótico, lisérgico e medicinal, Terry Riley é o tipo de som para ouvir quando se quer recarregar as baterias após um dia realmente ruim e cansativo. Mais um para ouvir e chapar o côco de cara limpa. Agora mesmo estou ouvindo o primeiro link do vimeo, é uma hora de variações melódicas só para ouvintes realmente analíticos.

Para explicar mais sobre Terry Riley, só deixando um par de links:

http://www.vimeo.com/4284473
http://vimeo.com/1876047

Por hoje é só, pessoal!

1 de julho de 2009

Mini-resenha: coleção portuguêsa de Júlio Verne

Senhores, boa-tarde:

Como diria a troupe do Monty Python, "And now for something completely different".

Além das postagens programadas e algumas vinhetas, de vez em nunca também jogarei meia dúzia de parágrafos "de bobeira", para a freqüência de atualização não ficar baixa demais.

Hoje vou falar sobre uma iniciativa editorial da Publisher Comércio Internacional, aqui de São Paulo, distribuída nas bancas pela DINAP S/A, Distribuidora Nacional de Publicações.

Trata-se da colecção (com o C extra, por que está em português de Portugal) das obras completas de Júlio Verne, publicada quinzenalmente e atualmente em seu terceiro volume (pelo menos no eixo Rio-São Paulo, já que não sei se a distribuição será simultânea em todo o território nacional ou setorizada): 5 semanas em balão. A colecção abriu com Vinte mil léguas submarinas e seguiu com Viagem ao mundo em 80 dias.

Pelo menos na banca onde compro (estação São Joaquim do metrô) quase não houve divulgação. Também, imagino a felicidade dos jornaleiros, neste nosso país, quando se deparam com um produto tão pouco palatável quanto um livro grande (algumas centenas de páginas), de capa dura (cara de livro "velho").

O estilo de Monsieur Verne é bastante peculiar, intercalando momentos de ação no melhor estilo block-buster com longas digressões psicológicas ou científicas. Estas últimas poderão parecer enfadonhas aos mais impacientes (confesso que por volta da metade de "Vinte mil léguas" as séries de peixes e organismos marinhos já me estavam aborrecendo um pouco), mas acredito que farão a delícia daqueles que tiverem vocações de cunho filosófico e ou naturalista.

Fora isso, o trabalho editorial da RBA Coleccionables S/A (empresa espanhola responsável por elaborar esta colecção em 2003) está até bastante razoável. Exceto por alguns pequenos erros de impressão, os volumes são muito bem cuidados, com ilustrações de capa visualmente atraentes, em um estilo nostálgico que há de lembrar a cada um a biblioteca do vovô. No mesmo espírito estão as ilustrações em preto e branco das páginas internas, no melhor estilo "bico de pena".

Recomendo e dou nota 8.